• Daniel Moura

RENOVAR

Remove pedras, planta roseiras, e faz doces.” (Cora Coralina)



Há momentos em nossas vidas que nos fazem sentir que as forças estão se acabando, que é preciso tomar novo fôlego para continuar a caminhada. São tempos de transformações, mudança de postura, na forma de pensar e agir, no olhar e nos gestos. E exigem de nós muita coragem e determinação para tomar decisões e nos renovar. Mas, antes de tudo, são tempos de esperança.


Conta uma fábula que a águia, ao chegar aos 40 anos, precisa tomar uma grande decisão para viver até os 70. Seus bicos e garras já estão grandes demais para a tarefa diária de conseguir comida. Suas penas estão velhas e quebradiças, impedindo-a de voar mais alto e mais rápido.


Ela precisa se renovar ou se deixar morrer. Então, ela se isola por um tempo, arranca suas penas e suas garras com o bico, depois o bate nas pedras para que caia também. Emagrece, pois fica sem comer até que as garras e o bico voltem a crescer. Assim, mais leve e com penas novas, alça seu vôo em direção à vida nova, com esperança, olhar no horizonte, ágil e veloz.


Nós também precisamos tomar decisões em determinados momentos. E precisamos de coragem para processar uma renovação em nós, que nos permitirá voar mais alto e viver plenamente, embora o risco das alturas e da velocidade nos espreite. Toda mudança gera insegurança. Vencer o medo do desconhecido talvez seja o grande desafio. Nessa empreitada, são necessárias criatividade para quebrar paradigmas, desestruturá-los e reestruturá-los de forma original e inédita, além de sabedoria e humildade para compreender que nós só nos realizamos pelo olhar do outro, que nos molda e nos define. Ele traz a novidade, o inusitado, o surpreendente - o que nos estimula e impulsiona para a mudança.


Renovar não é uma tarefa fácil. Nossas águias são interiores. Quantas certezas vamos acumulando pelo caminho, que não nos permitem aprender o novo - penas velhas que nos impedem de voar mais alto. Garras da agressividade que cresceram ao longo dos anos, muitas vezes pelas carências que as perdas deixaram. Bicos compridos, línguas compridas, pensamentos compridos, arraigados, tortos e tristes. Tudo isto precisa ser mudado, renovado, transformado.


Para nós, fazer o novo não significa transformar o rosto, o corpo, as mãos, ainda que tais mudanças possam até ajudar em determinados momentos, uma vez que melhoram a auto-estima, embelezam a aparência e fazem bem para a saúde. Mas a necessária mudança pode estar contida em um simples gesto, numa atitude tão corriqueira quanto definitiva para inaugurar uma nova fase, uma nova postura. Sorrir mais, por exemplo, e reclamar menos. Como diz Cora Coralina, plantar flores, fazer doces...


O segredo está no olhar. Onde foco minha atenção? Onde coloco minha esperança? Onde quero chegar? Só terei condições de mudar, vencer o medo e a dor da renovação, se meus desejos, meus sonhos forem grandes e belos o suficiente para alimentar minha esperança.


Renovar é renascer por dentro, resgatar a esperança da juventude. O que é a juventude senão a energia do deus "jovis", o deus da força do dia? Seremos cada vez mais jovens à medida que tivermos a esperança presente dentro de nós, esperança colocada em nossos corações pelo Autor da Vida, o Deus Sol que ilumina a nossa caminhada e não nos deixa desistir, que nos dá energia para voar mais alto e mais longe. Nosso vôo vai além de nossos bicos, garras e penas. Ele é dinâmico: quanto mais alto, mais energia, mais visão plena, mais realização, mais esperança... mais alto... mais energia... visão... realização... esperança... e sonho.


Shakespeare dizia que somos feitos da mesma matéria de nossos sonhos. É esta a matéria que precisa ser renovada. Não a outra, perecível, fugaz, mas a que vive para sempre.Se possuímos o tempo presente, ele é real e nele está o poder da mudança. Mas ele não nos possui. Não somos o tempo, o eterno é o que somos. Se renovarmos os nossos sonhos, tudo em nós será novo.

Daniel Moura


(35º Encontro da Feliz Idade)

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