• Daniel Moura

O andante

Os meus dias eram tristes

normais

vazios

triviais

As coisas eram boas

Talvez porque não eram

realmente boas

mas repetidas

e eu sempre triste

cansado

vazio

calado

Vivi procurando o meu Eu

que se perdeu

ou se escondeu

- ou então nem veio –

repetindo-me

nas coisas repetidas

Corri atrás de mim mesmo

em roda de uma árvore

(que parecia a vida)

feito moleque safado

despreocupadamente

inconscientemente

triste

cansado

vazio

cadeado sem chave

Era perigoso

eu dar de topo

com minhas costas

e não me encontrar nelas.

E os meus olhos

dos olhos

que olham pra dentro

de mim

eu os fitava

procurando-me.

É o que fazia

nas minhas repetidas coisas boas:

corria atrás de mim.

(E eu não me encontrava ali

comigo mesmo, não)

Eram muitas as coisa

E eu, um,

baratinado.

E de tanto procurar semelhanças

pro meu pobre eu vazio

descobri

que meu nobre eu vadio

navega sozinho sem mim

nos grandes mares da inconsciência

lá pelas bandas do além.

(O que seria de mim

se não saísse o meu eu

a procurar consolo no transcendental?)


Daniel

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