• Daniel Moura

Escravo do pão

Cai o martelo

em madeira e prego

e prega a alma

na esperança morta

de ganhar o pão

por um só dia.

A cada dia

o suor escorre

pelo rosto afora

e lembra a casa

a fome

o frio

o filho

e só se angustia.

A marmita chega fria

tão vazia

dos anseios da manhã

e o angu não desce

o feijão carece

e a dor esquece

que a vontade é vã.

Quando a tarde vem vermelha

já é tarde em rubro rosto

e ao sol posto

encosta o corpo

na ilusão

encontra o copo

e vai cantar o seu lamento.

Vem o filho e faz presença

no seu colo tão cansado

e a mulher como o sonhar

acaricia o seu amado

e o coitado não aguenta

e se arrebenta

de chorar.

O carinho lá por dentro

já não pode saciar.

E ao deitar sem sono e só

lembra o vale, o armazém,

a conta

o leite

o pouco pão.

E sonha

com fantasmas e com bruxos.

E acorda

chorando aos pés do seu patrão.

Acabou.

Serás agora o que quiserem

que tu sejas.


Daniel

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