VIDA E PALAVRA

por Daniel Moura

  • Daniel Moura

Existe um sulco dentro de mim

como uma fenda num solo árido

de uma planície.

Machuca muito

dói muito.

Há sempre uma alegria

que compense esta ferida

feita de feridinhas distintas.

Mas cada tristeza que vem

a aumenta um pouco

e intensifica a dor.

A cada esperança

de um sol novo e só

há uma esperança

por uma desesperança

por uma nuvem escura

por outra nuvem escura

e mais . . .

Para todo verão

um inverno.

E não há jeito

não há maneira de dizer

que preciso de tratamento

de um engenheiro

porque sou terra nova.

Com o esquecimento

a monotonia de mim mesmo

a fenda se alargando com as erosões

tristeza maior

alegria menor

gente pisando sobre mim...

eu sempre abaixo dos olhos.

Quando vier o engenheiro

serei um abismo

e no meu colo

passará um rio

que lavará a minha alma

e carregará para o mar a minha dor. . .

Daniel 18/12/1974

  • Daniel Moura

Não!,

direi toas as vezes

que tentarem tirar de mim

esta estranha vontade de voar,

ser pássaro

(ou coisa parecida).

Nunca irá embora de mim

este lirismo encantado

pelo encanto das coisas simples

simplesmente nuas

imprevisivelmente belas

imprescindivelmente nobres

arrancadas da nobreza

do interior das gentes.

Consentirei sim!,

quando me falarem de sóis, de estrelas,

de trevas, até,

mas que tragam o cheiro,

o sabor,

o colorido do homem,

neste esplêndido mistério,

nesta metamorfose

que o faz filho de Deus.

Daniel Moura 12/12/1978


  • Daniel Moura

Quando o caixão passou na avenida

as pessoas olharam ansiosas

por ver uma lágrima

ou um milagre.

E no meu coração

só a música funesta habitava.

Eu não sabia porque

as pessoas olhavam

e esperavam.

Não há o que olhar,

nem o que ver.

Nada de esperanças. . .

Tudo é triste nessa procissão,

mas tudo vazio também.

O caixão passava

e as pessoas

(múmias arrependidas)

se perdiam.

Eram faces ansiosas

e uma cara sem face.

Eram comentários

risinhos e choros

em torno de uma mudez

desconcertante.

Eram perguntas

sem respostas.

O caixão passava

E as pessoas perdidas. . .

Ninguém ressuscitou.

E aquela música tocando no meu coração

e como sombras negras

me encerravam no anonimato.

Quando o caixão passou na avenida

as pessoas olhavam ansiosas. . .

Era eu que morria

e elas não sabiam. . .


Daniel Moura (1976)